
Fazia um calor de proporções bíblicas e uma moto parada no sinal na descida da Ponte da Torre trazia um adesivo sobre a placa dizendo “Jesus está chegando”. Coincidência ou não, fazia sentido. Afinal, ele estava realmente a caminho, não para guiar os tementes ao Paraíso, e sim, para botar o rebanho techno para dançar. O namorado de Madona se chama Jesus, porém foi ela quem operou o milagre da multiplicação de talento do até então franciscano modelo, que agora se divide entre as passarelas internacionais e as pick ups da vida. Um Jesus Superstar, com furos não nas mãos, mas nas orelhas, e o cabelo tratado a mimo no Éden dos salões, em contraste com o modelo lambido e sem-corte do original, meio anos 70... 70 a.C.. Em comum, apenas a barriga tanquinho. Enquanto o sinal não abria, refleti sobre a heresia de Jesus voltar e, ao invés de aparecer na Assembléia de Deus, se apresentar num club, uma espécie de sucursal de Sodoma e Gomorra na Terra.
Cercado pelos fiéis, Jesus trocaria o ficar de joelhos pelo rebolado e, para celebrar a comunhão, levantaria o Iphone sobre a cabeça, antes de conectá-lo ao notebook e assim despejar um set list celestial, capaz de fazer o mais incrédulo ateu ter a certeza que, sim, Jesus existe. Lá pelas tantas, se alguém começasse a temer que o fim estivesse próximo, Jesus pediria aos garçons para transformar água em Red Bull e dirigiria aos sentados um “levanta-te e dança!”, ensinando o caminho do Céu. Uma buzina me tirou do transe. O semáforo abriu e a moto desapareceu, ziguezagueando pelo trânsito. Demorei um pouco a partir e acabei irritando um motorista que, adivinhando meu pensamento, baixou o vidro da janela e resumiu a história berrando um mais que pertinente “acorda para Jesus!”."O namorado de Madona se chama Jesus, porém foi ela quem operou o milagre da multiplicação de talento"

Um comentário:
Oh Glóooria!
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