25 de out. de 2009

Não “bullying” comigo


Nada é mais denunciador que dizer “na minha época”. Mas na falta de algo melhor, serve. Na minha época de estudante de Ensino Fundamental não tinha essa história de bullying. Aliás, em mil novecentos e antigamente não tinha nem Ensino Fundamental, era Ginasial. Não que o bullying inexistisse, só não era batizado e ninguém se preocupava com isso. Ser importunado por um galalau na escola era tão natural quanto usar farda. E como sempre fui desfavorecido verticalmente, terminava alvo fácil de um grandalhão que resolvia passar o recreio fazendo origami com meus braços. Levar telefone, então, nem se fala. Ainda hoje ouço um zumbido no ouvido quando passo em frente ao Nóbrega. Cascudo tomei de rodo. Impreterivelmente antes da aula de matemática, patrocinado por um veterano do Científico que tentava abrir minha cabeça para trigonometria. Sou analfabeto entre hipotenusas e catetos, mas não foi por falta de dedicação dele. Porém, meu pior pesadelo era o repetente. No fim das férias até a missa eu ia, comungar e tudo, implorando aos céus para que na sala não houvesse um. Minhas preces, contudo, não foram atendidas na sexta-série. No primeiro dia, apareceu um repetente, com erre maiúsculo, só para se ter uma idéia, de barba e fumando.
"Meu pior pesadelo era o repetente. No fim das férias até a missa eu ia, comungar e tudo, implorando aos céus para que na sala não houvesse um"
Na sexta-série, nem o professor tem barba e fuma. Como um imã, o repetente sentou justamente ao meu lado. Tentei não ficar pensando na modalidade de tortura que sofreria e me concentrei na aula. Foi quando fiz um comentário jocoso sobre o assunto e o repetente riu. Fiz outro. Novo riso. Estava salvo. Se bancar o bobo da corte me faria amigo do rei, ótimo, melhor que arrancarem a minha cueca pela cabeça. Garanti um ano tranquilo e aprendi: não há nada melhor contra a força que a inteligência. Desde então, ninguém mais “bullying” comigo.

3 comentários:

Editando Minha vida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Editando Minha vida disse...
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Editando Minha vida disse...

É, sem dúvida, você encontrou na inteligência a melhor forma de lidar com as pessoas mais sem caráter possível, mas sem necessariamente se tornar igual a elas, ao contrário, as superou. Tem tudo para ser convencido, mas não é. A tua vida parece que foi uma escola para ti, e apesar de não o conhecer profundamente, acredito que tirou uma boa lição de tudo de passou (os bons e maus momentos), conseguindo, acredito eu, encará-los como "momentos", "experiências” necessárias para a pessoa fantástica que és hoje.

Alguém que te admira muito,

Bárbara Branco